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Análise do Poema “QUADRILHA” (Carlos Drumond)

 

Desencontros

 

         No poema “Quadrilha”, de Carlos Drummond de Andrade, poeta que foi o maior representante da 2ª fase do Modernismo no Brasil, percebe-se uma íntima relação desse poema com a dança folclórica nacional, que consta de diversas evoluções em pares, representando o grande baile de um suposto casamento, em que é comum o desencontro dos casais, exatamente como se vê na obra em apreço.

 

Nota-se uma divertida troca de pares e desencontros amorosos entre as personagens, as quais vão sendo apresentadas em duplas, como que em uma dança, percebida na própria construção proposital da obra, na qual a alternância dos pares se dá pela utilização do conectivo “que”, sendo este o marcador do compasso da quadrilha, que ao mesmo tempo une e separa os casais, além de representar “o QUÊ do problema”, a circunstância ou situação adversa que impede a união definitiva dos pares. A única linha que não apresenta este conectivo narra finalmente uma união que se concretizou, a de Lili e J. Pinto Fernandes.

 

Essa união é precedida pelo conectivo “e”, que marca uma coordenação e não uma subordinação (como o “que”), revelando a afinidade entre o par seguinte, que por serem tão opostos – um, só com o apelido e o outro, só com o sobrenome –, terminaram se atraindo e entrelaçando-se em matrimônio.

        

         É interessante salientar que todas as personagens que não se deram bem na dança sofreram algum tipo de frustração em sua vida posterior. É como se a estrutura da quadrilha determinasse seus próprios destinos. João, insatisfeito com o desamor de Teresa, vai embora para os Estados Unidos. Esta, por sua vez, desapontada com a não correspondência de Raimundo, enclausurou-se no convento para nunca mais ser de homem algum, só de Deus.

 

         Já o Raimundo, que não era amado por Maria, numa tentativa de fugir da vida e de si mesmo, acabou morrendo em um grave acidente. Maria, desconsolada, não chegou a usar o hábito, mas também não quis mais se envolver com outro homem, além de seu amado Joaquim, que resolveu acometer a fatalidade de dar cabo de sua própria vida, só por causa de Lili, que não amava nem a ele, nem a mais ninguém.

 

         Um outro fato interessantíssimo é que apenas Lili, que nem ao menos possui um nome próprio, mas somente um apelido – é a única personagem com essa característica no poema –, acaba se casando. Ela representa o anonimato de qualquer um que poderia ter entrado na dança e ter se dado bem, pois além de ter se casado, foi a única a envolver-se com um homem possuidor de sobrenome, dando a idéia de um nobre, originário de uma classe alta, exatamente de onde se originou a quadrilha.

 

         Todos os nomes da obra, com exceção de Lili e seu par, são nomes simples, comuns, do povo, ou seja, da plebe, que foi para onde a festa folclórica da nobreza se estendeu após ter descida as escadarias dos palácios. Mas o eu-lírico retorna às origens da dança, valendo-se de sua própria estrutura para atingir esse intento.

 

         O último homem, que ainda não havia entrado na história, na verdade, representa a nobreza, a alta sociedade, expressas em seu sobrenome. Nota-se como de forma premeditada seu primeiro nome não é citado como o das demais personagens – está abreviado. Apenas seu sobrenome importa, pois o que marca no meio da alta sociedade não é o nome comum. Este, é desnecessário constar. O importante mesmo é o seu sobrenome, que representa a marca registrada da família (nobre) à qual pertence.

 

         É curioso como eu-poético faz questão de unir um par tão distinto. A grande afinidade entre os dois é exatamente o enorme contraste. Se bem que dessa união, pelo fato de a quadrilha ser um celebração de um suposto casamento em que os desencontros, enganos e desenganos são muito freqüentes , não se pode dizer que foi uma união perfeita, muito menos feliz. Até porque o texto nos adianta que Lili, que pode ser uma forma carinhosa ou vulgar de ser tratada, não amava ninguém. Em parte alguma está exposto que ela passou a amar ou se apaixonou por seu cônjuge.

 

Se ela não amava ninguém, não amava nem mesmo J. Pinto Fernandes, podendo ter se casado simplesmente para não cumprir com a mesma sina das demais mulheres do poema, ou ainda, com ambições mais elevadas, pelo fato de querer sair de seu anonimato, ou de sua vulgaridade, por meio da aquisição de um SOBREnome da nobreza.

        

         A finalização do poema com a retomada do conectivo “que” no último verso, traz à tona mais uma vez a adversão, a indecisão, a incerteza do QUÊ fazer agora com Lili, já que J. Pinto Fernandes “não tinha entrado na história”. Esse verso faz alusão ao desconhecimento pleno do moço que entrou na quadrilha sem saber dançar, ou seja, ignorante diante de tudo que houvera anteriormente na vida de Lili, a qual é o último nó da dança até chegar nele, que a recebe como companheira independente de seus sentimentos para com ele.

 

Quando finalmente, na dança, há uma par que se enlaça, ou poder-se-ia dizer: que se enrola, percebe-se que a música cessa, como se não só a música ou a dança, mas a própria vida tivesse parado quando Lili e J. Pinto Fernandes cruzaram o caminho um do outro.

 

Conclui-se, portanto, que a quadrilha é a própria vida, pois retrata os encontros e desencontros tão comuns dos seres humanos, em que há uma enorme frustração, decorrente do constante conflito entre o querer e o alcançar destes seres, limitados pelo compasso do tempo, tendo que aproveitar tudo, antes que a dança termine.

 

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